De pandemia a pandemônio
Categoria(s): Opinião
Fernando Parizi
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Agora não adianta mais ficar chorando o leite derramado, como não adiantou ao Egito sacrificar o rebanho de porcos do país. O influenza A H1N1, vírus com carga genética de vírus humanos, de aves e suínos, causador da “gripe suína”, já se disseminou entre nós tanto quanto sua versão exclusivamente humana, o H1N1. Só nos resta evitar que nos contaminemos e que a atual pandemia – epidemia generalizada – descambe para pandemônio – confusão generalizada – em escala global.
De duas semanas para cá, a aparente calmaria em termos epidemiológicos sacudiu nossa vidinha besta nas cidades outrora pacatas da Baixa Mogiana. turbulência gerada pelo surgimento de casos suspeitos em Mogi Mirim, Mogi Guaçu, Itapira, Conchal, Leme, São João da Boa Vista etc, alguns confirmados como sendo gripe A – denominação politicamente correta para ”gripe do porco” -, um deles resultando em morte em Mogi Guaçu.
Ontem, ao final de entrevista coletiva com os secretários municipais de Educação, Marcos Antonio, e de Saúde, Aldomir Arenghi, sobre o quadro geral da doença em Mogi Guaçu e medidas que estão sendo adotadas para conter que se alastre, senti que, agora, o menos importante são os números. A partir do momento que o vírus se instalou numa localidade, estatísticas vão apenas servir às autoridades públicas para adoção das melhores estratégias de contenção e controle epidêmico, e à imprensa para abastecer numericamente o noticiário até o assunto perder interesse e cair no esquecimento.
Quando a “peste gay” surgiu em meados da década de 1980 e propagou em escala planetária na década seguinte, foi um rebuliço só, números e mais números, pânico geral. As primeiras baixas, principalmente de famosos homossexuais como o ator americano Rock Hudson, o roqueiro inglês Fred Mercury e brasileiros como Cazuza, só aguçaram o medo que rotulava como persona non grata cá e lá quailquer moçoilo com espinha inflamada na cara, como as feridas do gay interpretado por Tom Hanks em “Filadélfia”.
Atualmente sabe-se que a Síndrome da Imunodeficiência Adquirida, a Aids, há muito deixou de ser “peste gay” por não ser doença que ataca exclusivamente homossexuais e sim a todos os seres humanos, inclusive quando ainda em gestação no ventre de mães portadoras do vírus HIV, do qual raramente se ouve falar hoje em dia. Nem se leva mais em conta a definição por grupos de risco: de início homossexuais, em seguida usuários de drogas injetáveis que compartilham agulhas descartáveis, depois receptores de sangue contaminado, e mais tarde os praticantes de sexo sem proteção que se contaminam e contaminam o parceiro, ou parceira. Muitas respeitáveis senhoras donas-de-casa só descobriram que estavam infectadas, graças aos maridos promíscuos, depois que ”enviuvaram”.
Ainda está fresco na memória das pessoas o episódio da “síndrome da vaca louca”, que levou ao sacrifício de milhares de cabeças de gado na Europa, principalmente na Inglaterra, e a um quase boicote ao consumo de carne bovina em todo mundo. Sobrou até para o Brasil, maior rebanho bovino do mundo, que não tinha nada a ver com o peixe mas viu suas exportações despencarem. Hoje, quando se fala em ”vaca louca” e Inglaterra, pensam logo na maluca da Amy Winehouse e não nas mimosas babando em convulsão.
Muitos também hão de se lembrar das toneladas de aves sacrificadas por causa da “gripe do frango”, que quando começou a vitimar humanos se rotulou como “gripe asiática”. Pânico geral, morte às “penosas”. Antes elas do que nós. Em Mogi Guaçu chegou a acontecer um fato registrado de forma hilária pela imprensa. Um criador de galinhas caipiras do Jardim Santa Terezinha suspeitou que as aves podiam estar com a tal “gripe do frango”. A Vigilância Sanitária foi acionada. Os bichos foram sacrificados e enterrados. Um repórter descreveu a cena: “As aves foram enterradas ao lado do agente sanitário”. Coitado do agente, nem teve tempo de saber que estavam contaminadas com salmonela. Que Deus o tenha, e às pobres galinhas também.
No final de abril, algumas semanas depois que o influenza A H1N1 deu o ar das graças no México, o governo muçulmano do Egito mandou sacrificar o renhado suíno do país, cerca de 350 mil porcos. A matança provocou a revolta da comunidade cristá copta, que vive da suinocultura no Egito. E mesmo diante de apelos internacionais para que reconsiderasse, o governo manteve a decisão sem assumir o compromissos de ressarcir o prejuízo dos criadores. Nem tanto pela preocupação de conter a nova gripe, mas pela indiferença da cultura muçulmana de não comer carne de porco.
Durante a entrevista coletiva de ontem, o secretário de Educação Marcos Antonio afirmou categoricamente o seguinte: retornando os estudantes da rede municipal às aulas (o retorno foi adiado de hoje para a próxima segunda, dia 3, podendo ainda ser adiado para depois, talvez dia 17, como na rede estadual), os pais serão orientados a levar o filho ao médico caso ele apresente sintomas de gripe, mas, para que o aluno volte a frequentar a sala de aula, terão de apresentar atestado médico de que está em condições de retornar às atividades escolares.
Indaguei se de fato um médico expediria esse tipo de atestado, dada a responsabilidade ética e profissional que implica, ou se médicos aos menos foram orientados nesse sentido. O secretário da Saúde Aldomir Arenghi interveio diante da dúvida manifestada pelo colega e disse que, mais à frente, se necessário, essa orientação poderá ser dada. Obviamente, Marcos Antonio, na boa intenção, quis dizer que o retorno de um aluno encaminhado para consulta médica estaria condicionado a alguma certeza de que poderia voltar às aulas sem oferecer riscos aos demais, o que é uma preocupação válida.
O que eu não acredito é que algum médico, grosso modo, ”coloque o dele na reta” num momento em que já não se faz mais exames preliminares para distinguir gripe comum da “suína”, dada a semelhança dos sintomas. As autoridades da área da saúde estão “focando” mais atenção e requisitando exames nos casos em que os sintomas se agravam, principalmente na forma de insuficiência respiratória aguda. Sem resultados de exames específicos em mãos, ao médico incumbido de expedir o tal atestado só restará recorrer ao “olhômetro” e entrevistar o paciente – “Como vai essa força? Está se sentindo melhor hoje? Dores, câimbras, enjoos? Pronto para o cateto do quadrado da hipotenusa? Ótimo. Aqui está seu salvo-conduto. Pode voltar!”
Ontem à tarde, depois da coletiva e horas depois que um homem de 70 anos foi internado na Santa Casa, em estado grave, com dificuldades respiratórias, fui a um alergista, com quem tinha consulta marcada. Só que o consultório dele compartilha a mesma sala de recepção com outros dois consultórios. Um deles é de um pneumologista, que chegou logo depois. Um paciente o esperava, deitado na cama, numa sala de repouso. Quando o médico chegou, ele se levantou e foi se acomodar numa das cadeiras da recepção, amparado pela esposa. Era um senhor de idade, cabelos brancos, forte e alto.
Notei que arfava, demonstrando dificuldade para respirar. Quando começou a tossir, não pensei duas vezes e fui esperar do lado de fora. É chato fazer e dizer isso. Mas bom senso e caldo de galinha – desde que não seja daquelas enterradas ao lado do agente sanitário no Jardim Santa Terezinha – não faz mal a ninguém.
Acho que o Ministério e as secretarias estaduais e municipais da Saúde estão certos em priorizar campanhas de esclarecimentos e orientação sobre a gripe A em detrimento de números e controles paliativos, como a bobagem de enviar comboio militar para a fronteira entre Brasil e Argentina. Como ainda não há vacina contra o influenza A H1N1 nem pílulas miraculosas de Frei Galvão ou o comprimidinho porreta do Dr. McCoy para todos, o jeito é mesmo evitar algomerações e. até por uma questão de civilidade e boa educação, tapar o rosto ao espirrar e lavar sempre as mãos.






